Alexandre Alves Costa

Lugares praticados versus lugares de memória

 

Numa primeira advertência afirmo que não me interessa, nem acho operativa, a distinção entre o chamado “centro histórico” e o resto da cidade. Tudo é a cidade e toda ela é, hoje, cidade herdada. Aliás o próprio termo “centro histórico” constitui, em si mesmo, uma armadilha.

Referir, seguidamente que para nós, arquitectos, a História interessa-nos particularmente, quando alguns dos seus aspectos nos ajudam a reconhecer o território para o nosso exercício disciplinar. Como este exercício parte da capacidade de imaginar soluções para o futuro,  são estas eventuais soluções que nos fornecem a matriz analítica, isto é, são estas que condicionam, definem e limitam o nosso campo de análise, não sendo, pois, toda a História que nos interessa. É assim, mesmo quando o futuro da cidade, como facto social por excelência, é, ainda, uma nebulosa sem contornos claros, que só o desenho poderá evidenciar, num processo que os vai conformando, encaminhando-os para uma definição rigorosa. É, pois, o nosso desígnio, que vai evidenciando a necessidade da análise: a histórica e todas as outras, as geográficas, as morfo/tipológicas ou sociológicas e antropológicas, ou ainda, as políticas, por estarmos no campo dos direitos dos cidadãos.

Esta posição de partida tem implícita a não consideração de qualquer fatalidade inelutável para o desenho do território em transformação, que poria de parte qualquer intervenção do arquitecto, inutilidade, talvez, alargada aos centros históricos, já estabilizados e a conservar, por efeito da sua classificação patrimonial, que os identifica como lugares especiais, bem definidos e limitados, defendidos da fúria desenfreada, seja da especulação, seja do exercício das necessidades vitais  da contemporaneidade.

Estes parentesis que aprisionam os centros históricos e os retiram do contexto mais alargado da cidade em expansão, tem produzido os maiores equívocos.

Estas palavras preliminares justificam a minha ambição e, talvez o meu dever, de reflectir,  fora do colete de forças que tantas vezes me aprisiona – falar das pedras velhas, deixando as novas para a cartografia do difuso ou para os livros do Álvaro Domingues.

Tratarei, em primeiro lugar, dos processos analíticos na sua relação com o projecto.

Começo por afirmar a minha convicção de que, mesmo que baseemos a análise da cidade em técnicas e procedimentos aparentemente objectivos, isso não impede que aquela não seja tomada pelo desejo, pela imaginação e pela recordação. É aí que residirá a chave que nos permite considerar a análise como parte do projecto.

Analisar equivale a redescrever. Só com um trabalho paciente de re-descrição da cidade, poderemos chegar a conhecer a sua íntima substãncia. Observar, imaginar e projectar, talvez seja o único caminho transitável, para nos aproximarmos de uma interpretação da cidade que, ao mesmo tempo, pressuponha uma ideia de transformação e de projecto.

Esta mistura de rigor e de invenção poderá lançar alguma luz sobre a, sempre discutida, relação análise/projecto.

O vínculo que estabelecemos com a cidade e a sua condição enigmática, é complexo e instável: tão depressa se instala na cumplicidade, como deriva na repreensão e no desgosto. Mas, na minha opinião, conforme se vai cumprindo a nossa experiência da cidade, esta vai-se convertendo numa construção imaginária a que podemos e devemos ir dando forma.

É verdadeira, de facto,  a minha confiança, embora não desmedida, no exercício da nossa actividade de arquitectos… desde que tenhámos coragem, e sobretudo vontade, de voltar a falar de política.

Tentarei aproximar-me do concreto do nosso território, litoral do noroeste peninsular, a partir das minhas convicções disciplinares que, obviamente, não põe de parte o papel essencial da teoria e da crítica, nem esquecem a importância das novas tecnologias.

Falarei do urbanismo difuso para defender a “tese”, obviamente discutível, de que este conceito, tão estimulante como aparentemente inovador, tem fundamentado reflexões  académicas, sendo puramente formal a sua cartografia, que não aprofunda o conhecimento do real, antes o desconhece.

E pior do que isso, na minha opinião, não é operativo nem instrumental na transformação do real, impondo-lhe, até, um certo fatalismo que esvazia a função do desenho.

Quando os romanos despovoaram os castros e entregaram terras ao seus habitantes, num gesto de grande alcance económico, a população espalhou-se pelo agro de forma dispersa.

Os colonizadores não construiram para aqueles, agora cidadãos de Roma, “aldeias da luz” para os realojar, dispersando-os pelos terrenos férteis, construindo, para eles próprios, paços senhoriais. Uma rede de caminhos se foi desenhando no território ligando casas, campos e moinhos, pombais ou zonas para tratamento de couros, pequenas oficinas artesanais, capelas ou santuários e cemitérios. As estradas romanas, anteriormente traçadas de forma menos orgãnica, ligavam os centros urbanos de forma independente daquela rede.

Esta dispersão era difusa e foi estudada por Alberto Sampaio. E aqui, abro um parentesis, para lhe prestar homenagem.

Os escritos e as reflexões sobre a chamada “decadência nacional”, intensificaram-se com a Geração de 70. Mas os autores desta época, de que faz parte Sampaio, não se limitaram a explicá-la e a propor remédios para a combater. Procuraram, também, compreender a Nação, definir e explicar as suas características, nomeadamente por meio de estudos sobre as origens do povo português e a averiguação exacta da sua história.

O que surpreende nas “Vilas do Norte de Portugal” é a sua cientificidade positiva. É a tentativa de aliança multidisciplinar com outros saberes, como os da geografia ou da arqueologia, com especial relevância para os estudos do Sr. Sarmento, como é referido no texto o vimarense Martins Sarmento. É o reconhecimento directo, não só dos documentos, mas do próprio território, na sua conformação contemporânea, em grande parte idêntica, ainda, à racionalidade romana sobre contextos mais silvestres, a que se sucederam outros, da Reconquista e da Nacionalidade que, sem porem em causa os seus fundamentos, a tornam mais complexa e de leitura obrigatoriamente mais detalhada.

Depois, estabelecendo metas e objectivos a alcançar, propõe-se colaborar na sua edificação, apontando caminhos para a sua regeneração ou adaptação ao mundo moderno. Serve-se para isso, e essa é a sua maior actualidade, de processos intelectuais como a averiguação exacta da história portuguesa ou de outros mais pragmáticos, como os meios para o seu desenvolvimento.

O que ele estuda é uma pequena parcela do nosso território, que percebemos vai tendo os seus prolongamentos naturais para outros mais vastos, construídos sob as mesmas condições. E, assim, reconstrói, a unidade de um território que é sobreponível ao da Gallaecia romana, quer dizer, o noroeste peninsular.

A exemplaridade e os ensinamentos deste seu trabalho de ciência do território, extraordinariamente inovador, tem uma das suas mais valias na tentativa de definição rigorosa e fundamentada de limites regionais, talvez estranha, hoje, neste nosso mundo global e, aparentemente, sem fronteiras.

Este território, que Sampaio estudou,  foi-se densificando, com gente e funções, fábricas e armazéns, aproximando-se das cidades que também cresciam em gente e funções, comerciais, administrativas ou simbólicas. Estas duas lógicas, inicialmente bem distintas, tocaram-se, interceptaram-se, confundiram-se . O conjunto conforma, hoje, aquilo a que podemos chamar, simplificando, conurbação urbana.

Interrogo-me, sobre o sentido de cartografar esta densificação, ou de  fotografar as suas impurezas se, afinal, não as  nomeamos? E, como sabia qualquer cartógrafo do século XVI, ou até qualquer bandeirante, cartografar sem nomear não é conhecer.

Desenvolvendo a minha ideia.

Este território é, na sua globalidade, constituido por fragmentos, crescendo por fragmentos que se vão somando e muitas vezes sobrepondo – o depósito dos séculos, como diria Aldo Rossi. Cada um destes fragmentos, da pré-história até hoje, tem uma história. Constitui um lugar antropológico, identitário, relacional e histórico. O nosso povo vai chamando e bem, “lugar”, a cada um destes fragmentos que, como todos sabemos, não são realidades estáticas, mas em contínuo processo de transformação.

Tive a  sorte de, num encontro sobre o Bairro do Aleixo, convocado por um amigo, militante cívico, ter conhecido um pequeno grupo de jovens do Vale do Ave, freguesia de Lordelo, do Conselho de Guimarães, a seguir a Covas,  encostada a Santo Tirso.

Estes jovens com idade média de cerca de 18 anos, pertencem ao difuso movimento dos indignados, peace and love, facebook, capuz, nenhuma violência no olhar, no trato ou nas palavras. São operários fabris, estudantes, freaks com BPM médio e charro pronto a usar. Auto denominam-se “guerreiros da paz”.

Questionados por mim, explicaram-me que, sendo todos de Lordelo, pertenciam a lugares diferentes e deram-me, até, alguns nomes que me entusiasmaram, lugar da Chamusca, do Alto, da Rua Nova, de Atainde, do Monte, de Lubazim, do Paço, lugar dos Escalheiros, etc.

Não foram capazes de me explicar (boa pergunta!, disseram-me) como se definiam as fronteiras destes lugares e prometeram investigar, consultar os mais velhos e a internet.

Eu próprio sabia, que no caminho rural para a minha escola primária, passava por quatro lugares. Sabia, até, que numa mesa de granito, colocada num sítio chave, mas enigmático, se realizava um almoço anual, de representantes dos seis lugares da freguesia.

Passados dias recebi um correio electrónico. Pesquisamos, e nos mapas da freguesia não aparecem indicados os lugares, mas sim os nomes das ruas e das travessas… e concluíam: modernizaram-se! Um deles morava na Rua da Estrada 105!

Entretanto lembrei-me do SAAL e das parcelas do território a que chamamos unidades operacionais, lembrei-me do Arquitecto Távora e dos seus Planos de Pormenor a anteciparem o Plano Geral… mas duvidei! Os tempos são outros, os meus amigos dizem-me que os caminhos do presente devem percorrer outros caminhos, que a nossa época corresponde a um novo e ainda não reconhecível paradigma.

Mas, apesar das dúvidas, resolvi prosseguir o caminho que eu próprio iniciara, encorajado pela perplexidade dos “guerreiros da paz” , que me tinham informado, também, que há na freguesia deles, uma fábrica tão grande que ocupa parte de dois lugares… Então, por ela passa, digo eu, uma linha virtual que os separa ,e esta linha é visível por alguns, por eles.

Primeira conclusão, sem eles nunca compreenderei nada, a não ser as espectaculares imagens de desordem que são a expressão misteriosa de um território que é necessário decifrar, analisar, antes de actuar (mal) ou desistir (pior)!

Quer dizer, segunda conclusão, é necessário dar sentido à cartografia, preenchê-la com conteúdo e, para isso, entram todas as disciplinas que antes referi, incuindo a história e a participação dos cidadãos!

O planeamento, a que também se tem chamado, ironicamente, “ordenamento do território”,  tem, assim, duas hipóteses metodológicas distintas que, em termos extremos, podemos caracterizar da seguinte forma:

  1. Criar uma estrutura que englobe tudo, estabelecendo uma nova malha ou rede que se sobreponha á realidade territorial, sem buscar nenhuma das suas particularidades, como que propondo um novo super-lugar, um novo mundo com valor em si próprio, a-histórico, intemporal, moderno, como um projecto do Mendes da Rocha.

ou

  1. Desenhar ou redesenhar o território, a partir da sua decifração, a que antes chamei re-descrição, procurando identificar os seus fragmentos, explicando-os e limitando-os e, a partir do caso a caso desse particular, fazer decorrer a sua reestruturação. A intervenção projectual deverá, nesta opção, consolidar ou reinventar “lugares praticados” que, como os lugares antigos, inventariados e classificados fossem, como eles, promovidos a “lugares de memória”.

Para os arquitectos que, como no meu caso particular, tem negado o primeiro processo e com a preguiça do aprofundamento que o segundo implicaria, o mais fácil será ir desenhando os espaços públicos, sem entender continuidades ou descontinuidades,  como se estes fossem, automaticamente, geradores de novas sociabilidades, sempre com o fundamentado receio de alguma conotação com a chamada “cidade histórica”, considerada modelo irreversívelmente perdido. Este processo intermédio, a que se tem chamado “desenho urbano” vai permitindo aos arquitectos darem o “gosto ao dedo”, sem grandes dramas que os obriguem a reflectir mais profundamente ou a ponderar as suas soluções perante os cidadãos.

Colocando-me na segunda hipótese metodológica, e para terminar com o “centro histórico”. Este é um dos lugares, entre outros, talvez subdivisível ainda, com a vantagem sobre os outros de ter, à partida, uma definição clara de limites, normalmente correspondentes à muralha medieval, exista esta ou não.

Será, assim, a partir da sua lógica própria, como  na de outro qualquer dos lugares que hoje constituem o chamado difuso, que se fudamentarão os processos e se buscarão as referências para, no caso a caso de cada um, se encontrar o desenho apropriado para os redefinir e qualificar, sem nenhuma transposição morfo-tipológica mecãnica, de um lugar para outro qualquer. Mesmo que aquele tenha a dignidade e o valor simbólico da cidade medieval.

Concluindo, não acredito que as regenerações urbanas, de forma e conteúdo, baseadas em programas  como o desenvolvido pela “Guimarães – Capital Europeia da Cultura 2012”, tenham algum valor, na transformação dos hábitos, acessos e usos da “cultura”, num território mais amplo do que o massacrado “centro histórico”, espécie de condensador das boas intenções que teimam em abandonar o referido território no seu conjunto.