Álvaro Domingues

Viver entre o rio a cidade

 

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O sino grande (de Tibães), consagrado a S. Bento, tem gravada a imagem do santo e uma grande cruz. Foi construído por Manuel Ferreira Gomes, em 1673. Tem a seguinte inscrição: «retirai-vos inimigos, porque Jesus, o Leão da Tribo de Judá, triunfou da morte, Aleluia».[1]
 

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“Viver entre o rio e a cidade” é o que se pode ler em grandes cartazes onde o mapa de uma freguesia convive com a publicidade a uma cidadela electrónica. O rio é o Cávado, a cidade é Braga, a freguesia é Palmeira, e a cidadela electrónica é um negócio de electrodomésticos com dois anos de garantia (o que não é nada mau e é obrigatório por lei).

Assim é a realidade e a sua geografia complexa. Por terras de Palmeira e da veiga do Cávado existe de tudo: vias rápidas com calibre de auto-estrada; estradas transformadas em rua da estrada; caminhos transformados em ruas dos caminhos (em Real existe o Caminho dos Quatro Caminhos que liga à Avenida S. Frutuoso); avenidas que são arruamentos de loteamentos (muitos deixados ao abandono da crise); centros comerciais gigantescos e vazios; estádios magníficos; aeródromos; zonas industriais; campos (mais ou menos abandonados ou cultivados), ruínas e casas por todo o lado.

É a simultaneidade das coisas, o cruzamento dos tempos no território, a instabilidade, ou as rupturas bruscas que verdadeiramente nos confunde entre a “cidade e o rio”. Nem cidade, nem campo – o que se vê é paisagem transgénica. Não vale a pena aprofundar os conteúdos das taxionomias habituais sobre a “cidade” e o “campo” porque a realidade ultrapassou as palavras/conceitos que a designavam. Para além disso, essa demanda mais se parece a um rol interminável de perdas de supostos mundos perfeitos entretanto desgovernados, mas que nada explica acerca do que verdadeiramente se passa ou está para vir.

O que de facto se passa é um duplo processo: a desruralização e a urbanização extensiva.

A desruralização assinala a desconstrução dupla da ruralidade: da agricultura enquanto economia e da cultura camponesa tradicional enquanto cultura. Perdida a centralidade das duas, a metamorfose da paisagem assinalará a transformação da produção agrícola (transformação em resíduo ou intensificação tecnológica) ou o seu desaparecimento. Quando a economia não é agrícola e a cultura não é camponesa, “rural” é uma palavra sem sentido, porque habitada pelos vários sentidos que perdeu.[1]

A urbanização extensiva[2] corresponde ao mosaico diverso e des-limitado da urbanização “fora” da cidade (a representação convencional que associa às formas construídas a existência de um limite, de um centro e de uma legibilidade formal). A denominada “expansão” urbana (estritamente tida como expansão contígua a partir de um aglomerado pré-existente), dá lugar a uma diversidade de processos/padrões de colonização do território e dos suportes sócio-técnicos da infraestruturação (energia eléctrica, água, esgotos, estradas, gáz, fibra óptica, etc.). A mobilidade – das pessoas, dos bens, da informação, da energia – e a acessibilidade resolverão o que antes só a aglomeração e a proximidade física viabilizavam.

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noua BRACARAE AUGUSTE descriptio, Civitates Orbis Terrarum, Braun & Hogenberg, c. 1594

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Fontismo – Chafariz da Ponte do Bico

Fontes Pereira de Melo, o político liberal e empreendedor do final do séc. XIX, deixou o seu nome ligado a um período de intenso investimento nas obras públicas – o fontismo -, através de empréstimos junto da banca o que arrastou o país para a falência (parece familiar..)[3]. Desse tempo ficou uma rede ferroviária desmedida (hoje a ser desmantelada), portos, redes de telegrapho e estradas. Nas fontes bebiam os homens e as bestas e a mobilidade era difícil e cara. Hoje não é assim. A mobilidade democratizou-se e o atrito do território diminuiu drasticamente. Em qualquer lugar onde haja acessibilidade, electricidade, telecomunicações, estradas, etc., a urbanização pode ocorrer em forma de casa, prédio, fábrica e tudo o mais que lhe pertence[4].

A Bracara Augusta pode expandir-se pela estrada fora.

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Campo d’Aviação

Quando o campo se transformou em campo d’aviação, estavam iniciados os tempos modernos. As veigas, como a do Cávado, sendo planas, também se prestam ao descolar e ao pousar das aeronaves.

Descolado da sua condição rural, o campo d’aviação situa-se entre a antiga estrada romana para Lucus Augusti e uma nova auto-estrada (trata-se de uma variante da N101, entretanto rebaptizada com o nome de Avenida do Cávado). No nó da auto-estrada, existe um motel: “todos os quartos possuem garagem privativa com acesso directo ao quarto (…). Cores quentes e intensas onde predominam o vermelho, cor da paixão…” [5]. Doce vida.

 

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Horly

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Doce Vida

Dolce Vita é o grande edifício do Centro Comercial apanhado nas malhas da crise: “Este espaço comercial de grande dimensão nos arredores de Braga já concluiu a construção e representa um investimento de 153 milhões de euros. Conta com 165 lojas, 2.750 lugares de estacionamento e 70 000 metros quadrados de área disponível”[6]. Na geografia relacional dos Centros Comerciais, o Dolce Vita abrange uma área potencial de mercado de cerca de 200 000 pessoas num espaço/tempo de uma viagem de 20 minutos, e 360 000 numa viagem de 30.

Mais do que um lugar, o Dolce Vita é um site. Quando o espaço/tempo é comprimido pela velocidade, não é a proximidade física que é importante; o importante é acessar, houvesse poder de compra. Na velha cidade, a aglomeração e a diversidade funcionais eram o garante da centralidade e o mais poderoso argumento para juntar multidões. Hoje, e no limite, as pessoas juntam-se na sociabilidade facebook, nos estádios, nas praias, nos centros comerciais ou nos festivais de Verão. Simplesmente, deslocam-se segundo o objectivo da deslocação e respectivos raciocínios de custo/benefício; nas espacialidades baratas do low cost o zapping territorial pode envolver distâncias imensas. Nas viagens casa-trabalho, quando não há trabalho por perto, emigra-se, como se sabe. Circular é viver. A diferença está entre os que circulam à força e os que circulam porque assim o desejam e os que não podem ou não sabem como circular. Desigualdade e injustiça são realidades sociais e pontos obrigatórios do discurso politicamente correcto.

Neste espaço hipertexto da urbanização, os objectos arquitectónicos – contentores de funções, ambiências, usos, modos de apropriação, etc. – dispõem-se como colagem, junto a externalidades que viabilizam uma acessibilidade fácil. Auto-estradas e estacionamento grátis são constituintes obrigatórios que diminuem esses custos de contexto. O resto é o que há por todo o lado, como a disponibilidade de energia, telecomunicações, água, ou saneamento. Para além do espaço “real” onde se exibem arquitecturas vistosas de grande volume, há ainda a possibilidade de expandir a presença social/territorial no espaço virtual da internet. Está tudo ligado!

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Pedreira

Os espaços e as actividades de excepção são poderosos marcadores das velhas e das novas geografias. Quando o futebol – um mundo de intensa sociabilidade, visibilidade mediática e de elevado espectro sócio-cultural – se junta com arquitecturas extraordinárias, os referentes elitistas e massificados, locais ou globais, genéricos ou especializados, etc., combinam-se poderosamente nos locais intensos da cultura-mundo[7]. Literalmente, o fenómeno move montanhas e pedreiras na construção deste outro site.

Em volta pode existir tudo, desde profundas transformações aceleradas pela nobilitação e pela visibilidade que estas presenças e ambiências induzem, até à inércia das coisas antes já existentes: campos, vinhas, socalcos, casas e casotas. Na cerimónia de entrega do prémio Pritzker 2011 a Eduardo Souto Moura, Barack Obama afirmou que o arquitecto “teve grande cuidado para posicionar o Estádio de maneira a que quem não possa ter bilhete pudesse ver o jogo dos montes circundantes.” O monte circundante é o Monte Castro onde existem arqueologias de um povoado fortificado proto-histórico[8] (outros futebóis), mas quem gere estádios e negócios de futebol não poderá deixar ninguém ver sem bilhete, só se for na televisão depois do canal ter pago o que paga (e não é pouco).

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Desruralização

A desruralização mobiliza, de facto, uma questão poliédrica que aparece enunciada de diferentes formas consoante o modo de problematização. Apesar dessa diversidade, existem pelo menos duas faces distintas que interessa iluminar para que se perceba melhor a profundidade das transformações em causa: a transformação ou desaparecimento da agricultura enquanto economia de referência (produção, distribuição, consumo, sistemas e tecnologias de produção, produtos, preços, mercados, etc.); e a transformação da cultura rural enquanto modo de vida, visão do mundo, sistema de hábitos, crenças, tradições ou comportamentos.

Rural – relativo à paisagem, à economia, à cultura, às tradições, aos modos e estilos de vida, etc. –, designa convencional e indistintamente sociedades e territórios marcados pela actividade agrícola. Estas complicações terminológicas e semiológicas, para além de serem confusas como todas as complicações, são ao mesmo tempo claras como o nevoeiro: designam realidades esfumadas onde cultura e agricultura se desencontram[9].

À clássica oposição cidade/campo, sobrepõe-se esta convivência: mato, ruínas e cidadelas electrónicas. No mundo internet poderá ser o encontro entre a SimCity e a (ex)FarmVille

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Overbuilding

Overbulding é a expressão em estrangeiro que designa o excesso da oferta construtiva em função da procura potencial.

Os “mercados”, essa entidade mais esfumada que D. Sebastião, são tudo menos invisíveis, pelo menos nos seus efeitos. Na foto existe uma rua impecavelmente pintada, passeios iluminados em vias de ocupação pela máquina da natureza, caixas brancas vandalizadas (armários para ligação à rede eléctrica, e telecomunicações) pelos assaltos do gangue do cobre, campos a monte, ruínas de casas agrícolas, oficinas mais ou menos assucatadas, blocos de habitação deixados em tosco pela falência do negócio imobiliário, grandes blocos de apartamentos vendidos e por vender, ocupados e desocupados.

Terrenos vagos, como diz Solà Morales, e no entanto tão claros na sua linguagem acerca de um tempo em suspenso onde se cruza a simultaneidade das coisas e dos acontecimentos.

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Wilderness

Nunca S. Martinho de Dume terá pensado nas suas pregações aos rústicos – De Correctione Rusticorum (c.a. 572-574)[10] -, o que se iria passar nas terras do seu mosteiro. Os rústicos – assim tratados por não (re)conhecerem a verdade dos livros sagrados e se entregarem às idolatrias do panteão romano ou dos deuses das nascentes e das árvores ou a outro qualquer espírito do lugar -, parece que debandaram para outras paragens e o pastor da igreja ficou sem o seu rebanho.

Agora o genius loci da crise é esta natureza aparentemente contra naturam, i.e. contra a ordem natural das coisas de que se ocupam as Ciências da Natureza[11].

A inocência da natureza na sua versão de Adão e Eva no Paraíso antes da serpente, perde-se, revelando um sem número de realidades e de representações, de práticas multiculturais e multinaturais e de híbridos natureza/cultura.[12]

Entre “ o rio e a cidade” nada tem descanso. Um desassossego, como diria qualquer pessoa.

 

Notas:

1 Cf.  DOMINGUES, A. (2012), Vida no Campo, ed. Dafne, Porto.

2 Cf. PORTAS, N.; DOMINGUES, A.; CABRAL, J. (2011), Políticas Urbanas II, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

3 Luís Aguiar SANTOS (2001), “A crise financeira de 1891: uma tentativa de explicação”, Análise Social, vol. XXXVI (158-159), pp.185-207; Maria Filomena MÓNICA (1997), “Um político, Fontes Pereira de Melo”, Análise Social, vol. XXXII (143-144), 1997 (4.º-5.º), Lisboa, pp. 731-745.

4 Cf.  DOMINGUES, A. (2010), Rua da Estrada, ed. Dafne, Porto.

5 http://www.moteishorly.pt/

6 Notícia de Novembro de 2011 consultada em http://economico.sapo.pt/noticias/crise-obriga-dolce-vita-braga-a-adiar-abertura-para-2012_132271.html (Janeiro de 2012)
Ver também: www.dolcevita.pt/centro_homepage

7 Gille LIPOVETSKY; Jean SERROY ( 2010) A Cultura Mundo, Ed. 70, Lisboa

8 http://www.geira.pt/arqueo/html/sitio15.html

9 Cf. Álvaro DOMINGUES (2012), Vida no Campo, ed. Dafne, Porto

10 Tradução consultada e revista de  Rosario Jove CLOLS (1981), Martin de Braga,  Sermon Contra las Supersticiones Rurales, Ediciones El Albir S.A., Barcelona
Ver também: José Francisco MEIRINHOS (2006) “Martinho de Braga e a compreensão da natureza na alta Idade Média (séc. VI): símbolos da fé contra a idolatria dos rústicos”, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4867.pdf

11 SWYNGEDOUW, E. (2011), “La Naturaleza no existe!”, Urban NS01, Departamento de Urbanística Y Ordenación del Territorio, Universidad Politecnica de Madrid, Madrid, pp. 22-66.

12 Bruno LATOUR (2004), The Politics of Nature: How to Bring the Sciences into Democracy, Trans. Catherine Porter, Cambridge: Harvard UP