Cidália Ferreira Silva

Devir-paisagem: vincul-ação

 

And suddenly in this laborious nowhere, suddenly
the inexpressible spot where the pure too-little
incomprehensibly changes, suddenly turns
into that empty too-much.
Where the multi-digited sum
works out without figures.
Rilke’s Duino Elegies V, 1923

Vínculo é a palavra catalisadora deste texto. Chegou pelo convite do José Martins, há um mês. Desconhecia-a, nela nunca tinha antes submergido. Amo as palavras, aquelas que já tornei minhas e as que não. Por isso, entrei no devir-vínculo.

Vínculo é aquilo que liga: é a corda entre os montanhistas e a montanha; o barco entre os pescadores e o mar; a porta entre o interior da minha casa e o exterior; a margem entre o rio e a terra; o passadiço entre as dunas e os meus pés; o muro entre a minha parcela e a tua; elementos físicos que materializam o vínculo-objeto entre seres identificáveis pela nossa linguagem do ‘Ser.’

Vínculo é também relação. Na respiga da teoria da vinculação estabelecida por Bowlby, [1] aprendemos  que a vinculação “cunha” a relação da mãe com a criança, sendo estruturadora para as relações sociais desta última. A teoria da vinculação é expandível a todo o tempo de vida da pessoa, nas suas diversas relações humanas, bem como  na relação com os espaços, lugares e objetos que habita.

A vinculação é a relação afetuosa de proximidade. Amamos o que sentimos próximo. Os nossos pais, os nossos amigos, os nossos lugares, as nossas paisagens. Voltamos aos lugares onde nascemos porque o afeto das nossas aventuras iniciáticas nos regozija, nos torna particulares, nos expande também.[2] “Nosso” significa aqui algo que nos pertence e recursivamente ao qual nós pertencemos. É o ser daqui, desta paisagem-vida ou é antes o devir-paisagem? É a paisagem um pano de fundo, ou temos que avançar como Châtelet na música recusando-a como “fundo sonoro,” [3] sendo para quem a ouve a própria atividade?

Da flor que vejo hoje aqui

O processo de vinculação com a paisagem e uns com os outros tem na cultura ocidental sido mediado pelo ‘ver.’ A percepção leva-nos a concluir do mundo finito e autónomo dos objetos-ser e também dos vínculos-objeto do entre-ser. Este ‘ver-paisagem’ é permeado tanto por distâncias mensuráveis, no espaço e no tempo, fundadas na separação dos sujeitos vinculados, como no que chamamos de ‘vínculo-permanência’ à imagem-paisagem que substitui a paisagem real e a tende a aprisionar.

Acreditamos desde Parménides (540 a.C.) que apenas a permanência é real.[4] Permanência que vinculamos à identidade das coisas — lugares ou pessoas. “Genius” é apenas um aprisionamento daquilo que cremos ser o ‘Ser’, seja ser-lugar, ser-paisagem, ser-território. Identidade criada pela linguagem dos predicados (fig.1) que aprisiona a vida, como nos ensina Deleuze.[5]

Projecto Poster © Cidália Silva 1

figura 1

Amamos a paisagem-objeto porque  flui em características fixas; descrevemo-la através das suas partes, como é o caso da identificação das dez unidades de paisagem do estuário do Cávado: Praia, Bancos de Areia, Dunas Primárias, Pinhal Dunar, Sapal, Juncal, Plantação séc. XIX, Área Agrícola, Habitação na Duna, Solos Urbanos.[6]

Apego-me a esta imagem rígida, congelando-a na mente, e quando descobrir que não é mais assim, o vínculo deixa de ser alegre: o campo está a ser comido pela cidade, o mar arrasou a marginal, a água inundou os campos e as prateleiras com os detergentes. Julgo e acuso as causas exteriores a mim: a culpa está nas autoridades, que não resguardaram os meus bens; ou na desventura da pouca sorte da chuva que veio em quantidade e tempo errado… Tudo o que dissolve a minha imagem-paisagem-objeto me causa tristeza.  Sou passiva, nada posso fazer perante a causa-objeto exterior que me faz mal.

A flor que olhamos e amamos, sim, essa pode ser descrita e representada na imagem que nos torna alegres e a congela, como a Dorian Gray,[7] mas esse-instante eternidade na imagem-flor é válido apenas e só para este instante aqui e agora em que a olho: este presente; é também válida apenas porque o que represento é a forma-finita do seu ser-flor, objeto delimitado de formas precisas. Desde que se tenha esse cuidado, podemos continuar a representar a imagem-paisagem-objeto, sabendo que é apenas uma imagem de um momento preciso no tempo, e do ser-paisagem que tento captar.

Concluímos que o vínculo-permanência nos pode causar tristeza. E a tristeza não é a porta do conhecimento, mas sim a alegria como nos ensina Espinosa,[8] e como “conhecer e atuar é o mesmo, já que toda a ideia adequada é um esquema de ação e toda a ação é a expressão de uma ideia,”[9]  para atuar-projetar precisamos de conhecer, mas para conhecer necessitamos de alegria, porque senão atuamos equivocamente, criando apenas mais tristeza. Perguntamos assim, que vinculação substituta pode existir que seja criadora de alegria-conhecimento?

O pensamento flor é mais profundo do que o meu olhar[10]

Onde começa a água doce e acaba a salgada? Não sabemos. A embocadura do Cávado é uma dança de escala incerta de interconexões indeterminadas… da lua, das marés, das chuvas, da nascente na Serra do Larouco, a 135 Km de distância, de todo o devir água-salgada-doce-água. Interessa-nos agora Heráclito[11] (500 a.C.) que nos ensina ao contrário de Parménides, que apenas a mudança é real: “não podes passar duas vezes no mesmo rio, uma vez que nem o rio nem tu és o mesmo.”

Para isso temos que entender a causa-relacional das coisas[12]. Temos que substituir o ‘Ser’ pelo ‘Devir-ser,’ e assim também é na paisagem. Mais uma vez ajuda-nos a flor já murcha, que remete para a entropia e para a possível alegria. Quando começamos a tocar as causas relacionais, percebemos que não somos seres passivos da ‘maldade’ exterior, mas ativos na vinculação e por isso podemos transmutar o seu devir, e assim transmutar a tristeza em alegria, sendo esta a abertura da porta do conhecimento que leva à acão-devir-paisagem.

Se eu estou triste porque as casas de Cedovém estão a ser ameaçadas pelo mar, não é ao mar que temos que acusar, mas antes entender a causa-relacional, ou a vinculação em curso em que mar-terra dançam o devir incerto do seu amor. Em Cedovém os pescadores nutriam o afeto-respeito pelo devir mar-terra, por isso construíam os seus palheiros em transitoriedade. São agora as casas perenes a causa que está no efeito que está na causa, como nos explica Edgar Morin no seu princípio da recursividade,[13] porque na sua perenidade ignoraram o devir-mar.

Estaríamos antes gratos se reconhecemos o tanto que a terra-mar nos permitiu viver no seu devir em vez de nos queixarmos da desgraça cuja causa está nas nossas ações cegas de desejo de controlo e poder. Temos antes que aprender a arte da gratidão. Gratidão pela terra-água, pela paisagem em passagem, pela vinculação em curso, no devir dos dias.

Mas atenção, tudo continua ainda por devir. Começamos pela linguagem. A linguagem que usamos é a linguagem do Ser, fixa-finalista. É-nos dado a todo o momento o desafio de a transcriar, a partir da imanência da impermanência se realmente desejamos nos aproximar do Devir. A linguagem dos verbos-ação (fig. 2) do devir é uma primeira pulsão: em vez de mar, marear, em vez de praia, prairar

Projecto Poster © Cidália Silva 2

figura 2

Temos que nos colocar em estado de efervescência para o fazer: libertarmo-nos das amarras do ver-ser exige vontade e prática, tão entranhado está em nós as certezas suas. Experimentem a conhecer o vinculação em curso de um muro de suporte através do toque das vossas mãos; fechem os olhos: vão descobrir texturas, (in-)animadas, rugosidades com grãos diversos, ervas, humidade, vida nas fissuras que tornam visível o vínculo terra-muro. Experimentem  agora “ouvir sem ver e assim ver” como fez João Maia no Campo da Feira de Vila Verde, [14] não tão longe de Esposende. Quando ele fechou os olhos viu a porosidade que o chão duro do Campo projetado no nosso estirador, não deixava ver; mapeou o som-paisagem, através do projetar-conhecer com o qual fermentou as ferramentas de transmutação da sua ação-arquiteto.

Para entrar neste grau de vinculação temos também que tocar a ‘paisagem sem orgãos’ transcriada do “corpo sem orgãos” de Artaud, Deleuze e Gauttari. Eu faço-me mar; quando dissolvemos os limites rígidos do ser, e entramos no devir do interser [15] como nos ensina Thich Nath Hanh, em que as nuvens estão na chuva, que está na flor, que está na terra, que está em mim, que está… até incluir todo o universo em cada devir-ser. Nesta paisagem sem orgãos em que “na parte está o todo” [16] como já nos ensinavam Alison e Peter Smithson, a escala é incerta, ao contrário do grau da vinculação anterior em que a certeza do ser-objeto nos tranquiliza, ensina-nos Robert Smithson.[17]

O que deseja a flor?

A vinculação é um ‘entre-processo’ seres vinculados e coexiste tanto entre os elementos da  paisagem, quanto entre eu e a paisagem, quanto entre eu e tu. Assim entre ‘o vínculo que liga’ e a ‘vinculação que relaciona’ damos um passo à frente; já não vínculo-objeto, mas vínculo-processo; já não vínculo-inação, mas vínculo-ação; já não vínculo-separação, mas vínculo-interconexão; já não vínculo mediado pelo ver, das causas-efeitos lineares, mas vínculo mediado pela energia percolada, das causas-relacionais, recursivas; já não o vínculo-permanência, das identidades congeladas do ser, mas vinculação em curso, do particular que tudo permeia em si, fundada na impermanência criativa que faz a porosidade entre devires dobrados, múltiplos: os do devir-ser, os do devir-vínculo, os do devir-interser; já não vínculo de proximidades mensuráveis, mas vinculação de proximidades topológicas, quer espaciais, quer temporais, seja no tempo dobrado de Michel Serres,[18] e também no espaço dobrado, precipício que  abre a possibilidade do longe ser perto e do perto ser longe, ou seja para além de Chronos e Euclides; mas também do tempo vivido, que abre a porta do conhecimento para a incerteza: postulando com Nietzsche, “o único que existe é a ação, o devir, a potência”[19] e não mais a duplicação da realidade em causas-efeitos, vínculos-vinculados, mas vincul-ações.

Não fiquem tristes continuamos a ser necessários, mas antes a partir de um outro ponto de fuga, com tempo aqui apenas para a semente: pa(i)(s)sajar (fig. 3).

Pa(i)(s)sajar é a hipótese vincul-ação-amor a partir da potência da paisagem.

Projecto Poster © Cidália Silva 3

figura 3

No infinito, agiremos  o pa(i)(s)sajar a partir da imanência da paisagem-em-passagem, co-presença de paisajar-passajar; devimos-paisagem, no princípio da impermanência, e suas cumplicidades— a imperfeição e incompletude. Pa(i)(s)sajar é “um acto de ‘desdobramento’ que tece de um ponto a outro outras tantas relações (…). É isso, actualizar a potência, ou devir activo: disso depende a vida e o seu prolongamento.”[20]

 

 

Notas:

[1] John Bowlby, “Attachment Behaviour,” Part III. in Attachment, vol. 1 of Attachment and Loss, 2ª ed (London: Hogart Press, 1982 [1953]). O meu agradecimento a Joaquim Borges, por esta referência e pelo devir-vínculo que permeou a alegria geradora deste texto.

[2] Ver Michel Serres “Le Voyage Encyclopédique” para sentir como La Garonne, o rio onde  nasceu, é a semente-potência do pensamento filosófico deste autor. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=iMWljs7qF_0 [Acedido em 15 Maio 2009].

[3] Gilles Deleuze, Péricles e Verdi. A Filosofia de François Châtelet (Vila Nova de Gaia: Estratégias Criativas, 1997) p. 27. [Périclès et Verdi. la Philosophie de François Châtelet, Les Éditions de Minuit, 1988].

[4] A. Cornelius Benjamin, “Ideas of time in the History of philosophy,” in J. T Fraser (ed.) The Voices of Time A cooperative survey of mans views of time as understood and described by the sciences and by the humanities (London: Allen Lane The Penguin Press, 1968) pp. 3-30, p. 8.

[5] Ver Maite Larrauri e Max, El Deseo según Gilles Deleuze (València: Tàndem edicions, 2000), pp. 20-27.

[6] Ver Aurora Martins, Representação de Processos Territoriaias e Geológicos de Equilíbrio da Paisagem do Estuário do Cávado. Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura, Orientada pelo Prof. Vincenzo Riso e coorientado pelo Arq. Daniel Duarte Pereira (Guimarães: EAUM, 2012) pp. 17-43.

[7] Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, Trad. Port. Januário Leite (Lisboa: Relógio de Água, 2010). [“Picture of Dorian Gray,” Lippincott’s Monthly Magazine, 20 de Junho 1890].

[8] Maite Larrauri e Max, La Felicidad según Spinoza (València: Tàndem edicions, 2003) p. 62.

[9] Maite Larrauri e Max, La Felicidad según Spinoza, p. 64.

[10] Transcriado a partir do nome da obra de Chen Hui-chiao “Thoughts of flowers go deeper than looking,” 1993.

[11] A. Cornelius Benjamin, “Ideas of time in the History of philosophy,” p. 9.

[12] cf. Com a “noção comum” de Espinosa” Maite Larrauri e Max, La Felicidad según Spinoza, p. 60-62.

[13] Ver princípio da recursividade, Edgar Morin, Introdução ao Pensamento Complexo, trad. Port. Dulce Matos (Lisboa: ESF Editeur Instituto Piaget, 2008) p.108. [Introduction à La Pensèe Complexe, ESF Editeur, 1990]

[14] Ver João Maia e Silva, Topografia do Ruído: o som como catalisador de projeto – transformação da não-porosidade física do Campo da Feira de Vila Verde em porosidade espacio-temporal, Tese de Mestrado Integrado em Arquitectura, Orientada pela Prof. Cidália Ferreira Silva (Guimarães: EAUM, 2013).

[15] A noção de “interser” de Thich Nath Hanh é sintetizada pela frase “Eu vejo-me a ti em mim, e a mim em ti.” Ver por exemplo “I see You in Me, and Me In You,” disponível em  http://www.youtube.com/watch?v=azOZ8d0UvVs [Acedido em 22 de Janeiro 2012] e também Thich Nhat Hanh, Being Peace, Arnold Kotler (ed.) (Berkeley: Parallax Press, 1987).

[16] Alison and Peter Smithson (1952-53) “Urban Re-identification” in Ordinaress and Light (London: Faber and Faber, 1970) p.94.

[17] Robert Smithson, “The Spiral Jetty”, in Jack Flam (ed.) Robert Smithson: The Collected Writings (Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press, 1996) [1972] pp. 143-153, p. 147.

[18] Ver Michel Serres with Bruno Latour, Conversations on Science, Culture, and Time, Trad. Roxanne Lapidus (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1995) pp.57–61.

[19] Maite Larrauri e Max, La Potencia según Nietzsche (València: Tàndem edicions, 2005) p. 38.

[20] Gilles Deleuze, Péricles e Verdi. A Filosofia de François Châtelet, p. 22.