João Bermudes

Esposende: A [re]qualificação do rio como gerador de identidade

 

Habitando Esposende desde criança, cedo me inquiri sobre as dinâmicas existentes nesta cidade, e desde a entrada no curso de arquitetura esta curiosidade só se intensificou, culminando num debruçar sobre esta tese na minha tese de mestrado, em que após análise extensiva do território se identificou a frente ribeirinha como elemento fulcral da identidade da cidade. Foi também fundamental perceber o rio como o grande espaço público do território e a frente ribeirinha como potencial de interface entre terra e água, e os os percursos tanto fluviais como terrestres com potenciadores da unificação da paisagem.
O rio Cávado desagua em Esposende, e como tal este foi desde a génese da cidade o elemento fulcral no seu desenvolvimento. Sendo o próprio rio um elemento em constante mutação, Esposende teve sempre tendência a refletir estas mudanças, criando uma co-dependência entre forma urbana e os limites do rio. Este vínculo permitiu identificar o rio com gerador da identidade urbana da cidade, não só fisica, mas também sócio-culturalmente.
As tentativas de dominar e requalificar o rio são os elementos-chave da formação do tecido urbano, e uma vez que a cidade começou como uma pequena vila piscatória, toda a evolução urbana tem como epicentro a frente ribeirinha e as suas constantes transformações, identificando-se três grandes momentos: o encanamento do rio, a construção da avenida marginal e a requalificação da frente ribeirinha.

Projecto Poster © João Bermudes 2

1759-Planta de Esposende e Fão por José Martins da Cruz, Arquivo do Exército

 

1879: Encanamento do rio Cávado

Desde cedo foi reconhecido o papel estratégico de Esposende, como porta de entrada no Cávado e como alternativa aos portos de Viana do Castelo e Vila do Conde, sendo-lhe atribuído em 1572 o grau de vila e concelho pelo rei D.Sebastião.

O rio era o principal via de transporte não só de pessoas, mas principalmente de mercadorias para o interior do distrito, tornando a as suas condições de navegabilidade fatores importantes na vida da região. Com o passar do tempo, as condições do porto de Esposende foram-se gradualmente deteriorando, surgindo vários problemas de assoreamento no estuário. Estas condicionantes levaram a que em 1795, fosse ordenado por D.Maria I, o encanamento do Cávado, em que através de um molhe as marés e a atividade do rio seriam controladas, possibilitando também controlo sobre a movimentação de resíduos, reduzindo as zonas assoreadas e melhorando a navegabilidade em geral no estuário. O encanamento do rio facilitaria a entrada no porto e o consequente transporte de mercadorias para o interior do distrito. Sucessivos adiamentos destas obras, fizeram com que a primeira tentativa de [re]qualificação do rio, como infraestrutura, fosse realizada entre 1879 e 1880: condicionada pela chegada dos caminhos de ferro a Barcelos, e a ligação de Esposende através das estradas nacionais tanto ao interior do distrito como a todo o litoral, anulando o papel do rio como principal via de comunicação do distrito.
Já em 1892, foi construída uma doca que tinha com propósito a tentativa regularização da margem direita do Cávado. A falta de limites definidos e a perca de importância geo-estratégica distrital levou à cristalização da forma urbana, em que uma reduzida concentração urbana junto à frente ribeirinha rodeada por grandes latifúndios agrícolas, mantendo-se uma pequena vila piscatória até meados do século XX.

1930: Avenida marginal

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Foto aérea de Esposende circa 1930, Arquivo Municipal

A construção da avenida marginal e o aterro da doca anteriormente executada são os percursores da mudança de paradigma do rio, em que este é encarado com outros intuitos que não o estritamente laboral.
A construção de uma boulevard e de uma grande zona de lazer, revelam as idiossincrasias da época, em que a promenade e a moda do veraneio, levaram a que as principais famílias burguesas e aristocráticas do norte procurassem a costa por motivos de salubridade. ”Esposende tinha duas almas: a do sul, que era piscatória, e a do norte, que era banhista.(…) A alma do sul estava acordada. Desde tempos muito antigos ela tinha aquele pacto com o mar, sobrevivia nos seus flancos, paciente, lentamente, ajustada à magra colheita de peixe e sargaço. A alma do norte floresceu um dia, construi nos pinhais um chalé branco, pôs-lhe um azulejo azul, botou patamar e alpendre à moda do mestre Raul Lino. Plantaram-se tamarizes na avenida; alguma dama no seu mirante aprendia piano com uma senhora do Porto, e tinha um chapéu com cerejas maduras. Distinguia-se; a sua gola de valencianas ficava cheia de grãos de areia quando ela saía à rua. Os banhistas eram gente de Braga e de Barcelos, de gostos moderados, clericais, fechados.” Este foco na frente ribeirinha como zona de lazer da vila, re-enfatizou uma característica urbana recorrente, em que toda as principiais vias da cidade se distribuem paralelamente aos limites do rio, existindo vias secundárias perpendiculares que nos conduzem à frente ribeirinha.
Esta [re]qualificação do rio, tendo em vista a qualidade de vida e o ócio, artificializou a quase totalidade da margem direita do Cávado, despoletando o inicio da colonização turística de Esposende e que aumentará exponencialmente o seu tecido urbano até finais do século XX. Esta expansão levou a que antiga vila piscatória localizada no centro da margem se estendesse por toda a frente ribeirinha acompanhando a marginal e gradualmente lançando-se para o interior, criando uma malha urbana densa comprimida pelas duas grandes artéria viárias, a avenida marginal e a Estrada Nacional 13. Com a melhoria considerável do nível de vida de todos os estratos sociais em meados dos anos 80, ocorreu um boom de residências secundárias transformando a cidade num dos mais importantes centros balneares do norte de Portugal, personificando esta nova identidade as torres de Ofir, que emergiram como os elementos dominantes do skyline da região.

2011: Requalificação da frente ribeirinha

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foto da marginal requalificada

 

Seguindo o programa POLIS, que pretende unificar todo o litoral Norte, toda a frente ribeirinha foi requalificada, conectando as duas novas marinas que personificam as duas almas da cidade, a marina norte particular e a marina sul dos pescadores. Estas marinas e a sua conexão permite a interligação entre os vários meios de transporte criando uma ligação inconsútil entre terra e água.
Todavia esta requalificação tem uma área de intervenção reduzida, compreendida entre as duas marinas, e fratura a frente entre áreas requalificadas a norte e não-requalificadas a sul, criando uma separação na margem e entre margens, criando um estuário desconexo e fragmentado. A intervenção também se sobrepõe demasiado ao pré-existente, em que a configuração espacial anterior é apagada perdendo-se a noção de paredão e de local de desfrute do rio, emergindo o carácter transitório e efémero do espaço e a miríade de materiais utilizados desconfigura e fragmenta o espaço. Esta rotura é evendiciada no vislumbre da pequena faixa de calçada portuguesa encoberta pelo alcatrão pigmentado da ciclovia e as placas de plástico a “imitar” madeira que invadem uma zona sapal de enorme beleza. Foram também destruídos o murete que servia de limite entre o passeio e o rio, e que tinha tantos usos como a capacidade de imaginação: desde banco, a local para banhos de sol e zona de descanso, todas estas características foram perdidas perdendo também a capacidade de ser um espaço de conversa e confraternização, qualidades anteriormente intrínsecas com este local.
Esta requalificação enfatizou ainda mais o papel central da frente ribeirinha como grande espaço público da cidade, fechando o ciclo em que o rio é agora encarado principalmente como forma de lazer, tanto em terra como em água.
Esta relação de desfrute do rio é também evidenciada na outra margem, em que um conjunto de passadiços nos permite explorar o parque litoral norte e o seu riquíssimo eco-sistema.
A artificialização e requalificação da quase toda a frente ribeirinha, é fruto da tentativa de controlo e domínio do elemento gerador da identidade, assumindo assim também as rédeas da identidade urbana.

2014: [Re]qualificações sobrepostas

Na forma urbana contemporânea de Esposende é possível identificar todos os estratos da sua evolução, desde a barra e o processo de encanamento do rio, à concentração do edificado junto à frente ribeirinha fruto da colonização turística, a marginal original e a requalificada que personifica o Esposende de lazer e turismo.
A coexistência entre todas as intervenções tem que ser o próximo passo estratégico, uma vez que as várias intervenções permanecem mas não se inter-relacionam, resultando num patchwork incoerente, que gerou um todo fragmentado. É também importante repensar a identidade do território, já que as sucessivas requalificações vêm também diluindo a identidade da cidade, transformando-a pouco a pouco numa cidade costeira genérica vocacionada para turismo.
É importante regressar às raízes em que o rio era a identidade, em que toda a frente ribeirinha e este contacto com água era encarado como o contato com a nossa própria identidade. Em que era possível discernir o suor e os sonhos que percorrem aquele rio que moldaram e formaram Esposende.

Projecto Poster © João Bermudes 1

 

Notas:

1 Agustina Bessa-Luís, in Vila e Concelho de Esposende – IV Centenário 1572-1972. Memória de Esposende