Miguel Bandeira

Sulcos profundos da urbanidade bracarense: o pagão e o cristão - deambulações urbanológicas pela geografia cultural de Braga-

 

Porque o desencanto se tornou crónico ele não merece a nossa angústia. A continuação salutar do caminho, quiçá, está em resgatar a infância que conservamos dentro de nós

Vivemos tempos de transição que justificam um sentimento de dupla perda, vaticina-nos João Ferrão – ex-secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades (2005-2009) – no seu mais recente livro[1] a propósito, da perda de um passado cada vez mais longínquo e que já não é possível prolongar; e, ao mesmo tempo, a perda de um futuro imaginado que, por boas e más razões, já não é possível cumprir. Porquê então, chegados a este esgotamento existencial, ainda continuamos a saber tão pouco sobre aspectos decisivos para tornar mais eficiente e qualificada a política pública de ordenamento do território? E que domínios merecem a nossa atenção? Questiona-nos e desafia-nos o autor logo a abrir.

Fazendo uso da linguagem, que sempre nos põe em esforço de comunicação, ainda que falemos diversas línguas, temos vindo a insistir no trilhar da semiologia urbana como método, neste caso, para relembrarmos a nossa infância [do território]. Isto é, para nos compreendermos melhor a nós próprios, para melhor contemporizarmos com essas angústias todas que andam por aí, com todo esse chorrilho de metáforas sobre a ansiedade de permanentes prospectivas para o território, pretensamente revolucionárias ou regenerativas, a maior parte delas dirigidas à cidade das nossas melancolias colectivas.

Achamos, porém, que não nos devemos cingir ao simbólico, ou meramente ao emotivo, como uma elucubração pessoal, procurando a alternativa de sempre vasculhar a essência de um espaço vivido. Os seus sinais, os códigos, os símbolos, a semântica de um rasto que nos solidariza, que nos identifica, nos proporciona um sentimento de irmandade, cooperante e cosmopolita.

Nesta circunstância o nosso desafio está em tentar fixar alguns dos sulcos mais decisivos e duradoiros do território bracarense, curiosamente, um dos mais concentracionários da urbanidade dispersa do Entre Douro e Minho, onde esta se integra. Certamente um pretexto para tocar a reunir.

Buscamos então uma série de mensagens que se podem consubstanciar em ideias. Elementos de representação que possam identificar o território como tal, de preferência que sejam reconhecidos por todos, tanto interna como externamente. Não precisam de ser conceitos axiológicos ou sistémicos, carregados de armaduras quantitativas e municiados de erudição, podem bem até ser somente imagens, fragmentos dispersos de ditos populares, até mitos, na mesma perspectiva com que R. Barthes (1956) afirmou não haver limites para tal, porque o universo é infinitamente sugestivo. Todavia, têm de demonstrar alguma robustez. Para persistir têm de ter atravessado os tempos incólumes às transformações mais profundas, dir-se-ia até, às rupturas historiograficamente mais determinantes e consagradas (M. Bandeira, 2009).

De facto, glosando de uma afirmação anterior, reiteraríamos que o território é também uma superfície de inscrição comunicativa, diríamos hoje, um écran de manifestação de intensidades humanas, cada vez mais rápidas, cada vez mais alternas, cada vez mais alheias entre si.

Para lá da vertigem, recuperemos então a metáfora do palimpsesto, um elemento artesanal e um factor de comunicação oposto, de longo rasto, é certo, superfície de transmissão de mensagens, que ora se interpenetram, sobrepõem, cruzam, chocam, ora contradizem, identificando e identificando-se, afirmando-se e, naturalmente, extinguindo-se.

Retomando o ensaio reflexivo iniciado em “três mitos visuais de Braga” (M. Bandeira, 2009), onde discorremos sobre a representação e a permanência de alguns sulcos enraizados que têm contribuído para construção da identidade bracarense, centramo-nos agora na perspectiva dupla e interactiva de uma mundividência entre o pagão e o cristão, como, p. ex., também é o romano e o barroco, dois filões identitários que acenam as mais diversificadas encenações da imagem de Braga.

 

Entre a agros pagã e a civitas cristã

A etimologia do pagão, do pagus latino, a marca de demarcação da aldeia, isto é o camponês que nos remete para o oposto de cidade. É ainda, e de facto, neste caso a urb de Bracara Augusta, indexada a esse imperador bimilenário e distante. A cidade sinónimo de civilização, da romanização que, com Constantino, depois do primeiro quartel do século IV, passará a ser sinónimo de cristianização. A cidade urbanizada, luzeiro de cultura por oposição ao campo, ao agros, bárbaro e rústico, mais próximo das forças da natureza do que da revolução do redentor, Deus feito homem. Tudo isto pode ser um lugar-comum, quiçá a preservação retórica de imagens persistentemente trabalhadas, enfunadas de mito, de lugares-comuns, mas certamente amplamente reconhecíveis no tempo e no espaço. Contudo, a urbanidade clássica de Braga, desde as suas origens esteve sempre subordinada ao campo, a uma matriz rural. Significado mais profundo de terra, telúrico, que se associa ao espírito rústico do campo, pagão (paganum), isto é, bárbaro e não urbano, Politeísta por provir de muitos deuses.

A dramaturgia da imagem da cidade de Braga articula com rara reciprocidade a Semana Santa e o Barroco. Mais não fosse, a referência comunicacional síntese e oficiosa da urbe afirma e revê-se nesta associação.

Para melhor compreendermos este epíteto teremos de recuar um pouco e, antes de mais, recordar que o movimento mental da Contra-Reforma na Igreja teve num dos Arcebispos de Braga – D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590) – um dos modelos universais de pastor saídos do Concílio de Trento (3º p. 1562/63). No período que se seguiu a cidade refulgiu a sua idade de ouro, onde o seu Príncipe, governava indistintamente o húmus do Reino celeste e a República bracarense. De facto, o mitrado de Braga além de Primaz das Hespanhas dirigia politicamente uma vasta diocese e governava uma cidade que prosperava pelo que se designou chamar indústria do culto (sedas, sinos, velas, paramentarias, vestuário, artes decorativas e do espectáculo, etc.).

De facto, se há perenidade do Barroco bracarense que se projecta nos dias de hoje, é certamente, as festividades da Semana Santa (Bandeira, 2003). No plano subsistente das imagens mais fortes e intensas são precisamente as procissões e os préstitos litúrgicos, os eventos onde se testemunha essa tensão entre o religioso e o profano. A atmosfera de contrição e a penitência que se anuncia já sob os aromas primaveris, convoca igualmente uma outra tensão latente na Semana Santa, de novo indexada à dicotomia do cristão e o pagão, simbolicamente transfigurado no préstito dos farricocos embuçados. Isto é, o momento de promiscuidade entre o público e o privado. Há como que um natural contraimento, consciente da condição universal da fragilidade humana, que é inerente ao luto pela paixão de Cristo em simultâneo com a ressurreição expectante. O triunfo da evangelização romana sobre o transe promissor da estação que se anuncia.

A cidade de Braga, a Roma portuguesa, como foi reiteradamente propagandeada durante o Estado Novo (1933-59) atribuiu a Braga uma imagem nacional de senso comum fundamentalmente eclesiástica e conservadora. Recorde-se, também que, certamente não foi por acaso, que a revolta militar de 28 de Maio de 1926 partiu de Braga, ou que A. Oliveira Salazar (1889-1970), celebrando-o, escolhesse o varandim do Convento (então quartel) do Pópulo para daí proferir o seu célebre Deus, Pátria, Autoridade e Família.

Este discurso e a imagem de quem o proferiu ainda hoje ressoam nas referencias à cidade de Braga. No entanto, para lá de uma religiosidade formal esmorecente, já notória desde os meados de 1960, mas que, todavia, se acentuou com o forte pendor secularista que resultou à revolução dos cravos, pode-se hoje dizer, está quase ausente da própria imagem pública.

Não fosse ainda a tremenda força das frontarias e dos retábulos do Rocaille bracarense, divulgadas ao mundo por um historiador de arte americano, que simultaneamente fazia espionagem no quadro da guerra fria, ou, de um modo publicamente mais vivencial e telúrico, pela persistência sentida das celebrações pascais da Semana Santa, e arriscaríamos mesmo dizer que uma certa imagem de marca da cidade não passaria mesmo de um equívoco, já que até alguns dos ícones religiosos dominantes correm hoje o risco de se confundirem com um novo tipo de idolatria. Mas essa é outra história.

Será, ainda assim, pelo caso concreto da Semana Santa que desfrutamos hoje de um dos postais mais potentes da cidade, que atrai vagas de fotógrafos na esteira do último reduto do Barroco vivo entre nós. Busca-se, algo freneticamente, o material expressionista das faces dos celebrantes, os contrastes de iluminação, a imagem omnipresente do Cristo Redentor das nossas infâncias. As celebrações oferecem-se mesmo como um último bastião de autenticidade e de espontaneidade facial da massa humana assistente. Vezes há que até surgem enfunadas de tragicomédia, filtradas no halo da luz das velas ou da chama das tochas, tendo por pano de fundo as trevas nocturnas das procissões.

Ao mesmo tempo confrontamo-nos perante o prosaísmo dos néons e das pipocas e o anacronismo dos pés descalços dos penitentes. É a verdadeira assunção do preto e branco, de rostos reveladores de boçalidade e de delicadeza, de sofrimento e de esperança, de uma beleza que desponta ou até pelo desajuste que se revela. A cidade cheira a incenso como uma imensa sacristia ao mesmo tempo que se sente o crepitar das farturas. Braga come, bebe e se diverte, sem dever nada à folia dos eventos do recomeço pagão que subsistem de outras eras.

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Mais velh[a e fecunda] do que a Sé de Braga foi aforismo mítico nacional, que traduz a elevada antiguidade da urbe. Tão antiga que, sendo das primeiras catedrais peninsulares, é o epicentro de um culto mais antigo do que aquele que foi votado a Santa Maria de Braga, a matriarca, ao que se supõe, herdeira da Ísis “lactans”, amamentando o enigmático Horus. Formalmente cristianizada há mais de 900 anos atrás, constituiu um foco irradiador de fé para toda a cristandade, desde essa que era então a finisterra oriental do império romano, bastando para tal avocar o autor da Historiæ adversum Paganos, Paulo Orósio (séculos IV e V), natural de Bracara.

A Sé-Catedral através da sua poderosa força gravítica será a mesma que constituirá uma espécie de repositório privilegiado das prelaturas dos princípes-arcebispo. Cada um dos Primaz das Hespanhas a usará como uma expressão dos seus desíginios. D. Rodrigo da Moura Teles (1704-1728) irá revestir a fachada do aparato barroco que ainda hoje ostenta.

A Sé de Braga tornou-se assim geradora da centralidade medieval da urbe, ao ordenar um raio sensivelmente constante ao perímetro amuralhado, sem, todavia, escamotear a evidência ancestral, pré-existente, dos núcleos bárbaros dos arredores, o suévico S. Martinho de Dume (Séc. VI) e o visigótico S. Frutuoso de Montélios (Séc. VII), evidências atractoras da fertilidade do Cávado.

As figuras alegóricas jamais deixarão de povoar o imaginário bracarense, de que é exemplo a cibele coroada (R. Morais) antropomorfização da urbe de Bracara, que votaremos encontrar no frontão do Arco da Porta Nova, no salão nobre dos Paços do Concelho, ou no púlpito da Igreja do Recolhimento da Penha de França. A perenidade da simbologia feminina de representação da cidade manter-se-á, inclusive, na sua própria heráldica, conforme se pode constatar no brasão de armas da cidade, enquadrada por um misto da fachada da Sé com a as muralhas da cidade.

Talvez por isso mesmo também se possa compreender que a Sé Catedral de Braga, embora desprovida de todo o arrojo gótico, alheia às acentuações românticas daquelas ousadias arquitectónicas que incidiram sobre as catedrais europeias do século XIX, permaneça algo voluntariamente equívoca no seu referente temporal. A Sé conserva a aura mística e mítica do eterno retorno ao lugar mágico, ou sagrado, do nascimento, quiçá de ambos, da fertilidade do ventre materno, do locus das origens, enfim, do reduto profusamente desenhado, fotografado, que serviu de motivo imagético privilegiado da urbe, como se de facto quisesse ilustrar o lugar onde tudo começou.

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Do Bom Jesus do Monte evidencia-se a escala da paisagem urbana concebida como tal. Isto é, para se ver e ser vista. Demasiado distante para ser considerado uma janela sobre a cidade, mas suficientemente cercano para constituir um ponto de composição do horizonte urbano, o Bom Jesus cedo ocupou um lugar proeminente no imaginário colectivo dos bracarenses. Primeiro foi a perspectiva deliberadamente cristã de conceber um santuário para ser observado a partir da cidade, depois veio a estância turística, valorizar a função de miradouro, de vista sobre a cidade. Por um lado, o critério de uma geografia sagrada, como nos propõe Portocarrero (2010), o claramente visto do ponto de fuga euclidiano, ou o axis mundi, que constitui o escadório do Bom Jesus do Monte, programado para ser enquadrado a partir da Arcada,testemunho evidente da recriação dramática de uma via crucis, motivo exaltante de projecção visual de um sacro monte, dir-se-ia de uma espécie de altar sobre a nave a céu aberto da Avenida Central. Por outro lado, foi, com a invenção da Braga Pitoresca ou a Verdadeira Cyntra do Norte, que se começou a construir uma das primeiras visões modernas de Braga.

Embora o Bom Jesus nunca deixando de ser meta de peregrino e lugar de oração, foi e é, também, o primeiro grande destino turístico de referência do oitocentismo local.

Desde sempre santuário cristão e, ou à vez, instância de repouso para os lídimos herdeiros do tour, essa expressão, chamar-lhe-íamos, do paganismo moderno, reconheceu seguramente, de há três séculos a esta parte, uma crescente ambivalência da função de arrabalde divino e de mundano destino de férias, onde não faltou mesmo o parque de diversões, os botequins de circunstância e até um dito casino. Entre todas as iniciativas a mais paradigmática para o ilustrar da presente dicotomia, já o dissemos, foi a criação da Casa das Estampas (1926), do arquitecto Raul Lino (1879-1974), marco testemunho da permanente imanência da imagem no Bom Jesus do Monte, instrumento de fixação das pulsões entre o humano e a natureza, num sítio que se pretendeu sempre único.

© Miguel Bandeira 1

“Século Ilustrado” (esq.) e J. Abel Manta (drt.)

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Do continuum urbanizado que hoje se estende pela encosta acima, ou abaixo, conforme a perspectiva em que nos colocamos, deparamo-nos com um espaço urbano indiferenciado e fragmentado, por um processo intensivo de loteamento realizado à escala do parcelário das antigas quintas rurais.

Um pouco ao critério de R. Barthes, é Braga sempre a crescer. Trata-se do mais recente mito urbano. Retirado do slogan central de uma campanha eleitoral passada. Para além do detalhe dos números, são conhecidos alguns referentes correlacionados, tais como a terceira cidade do País e a cidade (das) mais jovem da Europa, motivo publicamente invocado no desígnio de candidatura de capital europeia da juventude (2012).

Saídos de mais um recenseamento da população, Braga conta hoje com 181 474 habitantes (2011), reunindo o limite da cidade canónica mais de 70% deste valor. São conhecidas as elevadas taxas de crescimento, especialmente no âmbito do desfasamento com o número alojamentos, cujos valores oficiais, francamente conservadores, reconhecem mais de 20 mil devolutos. Isto é, Braga, tecnicamente, se imaginada numa situação de requisição civil para fazer face a uma qualquer catástrofe, teria a possibilidade de alojar, sem violentar a intimidade dos seus residentes, uma população entre 30 a 40 mil pessoas…

Porém, se é verdade que escrutínio de exemplos na história de Braga possam evidenciar antecedências que justifiquem o enraizamento e a continuidade do sempre a crescer, não é menos certo, que o mito se consubstanciou nestas últimas quase quatro décadas, quando se descobriu que a área privilegiada de expansão da cidade (1970/80) incorporava terrenos cujo subsolo continha testemunhos patrimoniais de valor arqueológico, datáveis ao tempo de Bracara Augusta.

Como já tivemos oportunidade de abordar em anterior trabalho, a tensão crescente entre os interesses do sector imobiliário e o dos defensores do património cultural, que se lhes opuseram, de algum modo recuperaram um tipo de debate político que tinha já os seus antecedentes na cidade do início século XX. Deu-se como que uma miscigenação dos referentes, onde os devotos do património, apologistas do valor sacralizado dos testemunhos romanos, enfrentaram os politeístas do pragmatismo político. Estes últimos, contudo, rapidamente deixaram de se sustentar na resposta social que era reivindicada no início do novo regime com a prioridade dada à habitação, para passar à tentação utilitária, e algumas vezes totalitária, de responder à sociedade de consumo que despontava. Num certo sentido, assistir-se-ia ao contraste discursivo balanceado entre um certo intelectualismo moralizante e um populismo imediatista, predador, sendo que ambos, em simultâneo, para o melhor e para o pior, ajudaram a fixar uma imagem nova da cidade.

 

Ponto de situação

Como não nos cansamos de notar – porque entendemos não ser um mero acaso – entre as boas-vindas da placa da auto-estrada que acena aos que nos visitam com a imagem do principal ícone religioso — a Sé — subordinado ao epíteto de Cidade do Barroco, e a saudação dos mortos pratrimonializados (ou esquecidos) das necrópoles à entrada da cidade romana, detectamos de imediato a indistinção do tempo, o poderoso postal que atravessa a história da urbe, que ora opõe, ora confunde, o cristão e o pagão em Braga. Sobre isso encontramos muitos exemplos. Do mesmo modo que o monumental novo Estádio Municipal, do laureado arquitecto Souto Moura, sendo uma obra de referência do regime, é Barroco por exaltar a grandiosidade principesca e absoluta do autarca, ele é também, simultaneamente, pagão pela natureza da finalidade que lhe está destinada. São os jogos do povo, consagração Clássica que se faz dos ídolos da contemporaneidade, os futebolistas, os semi-deuses de um cristianismo ausente. Uma vez mais e sempre a imagem hodierna de Braga confronta-nos com essa tensão permanentemente entre o Barroco e o Romano, entre o cristão e o pagão.

 

Notas:

[1] – Ferrão, João – O Ordenamento do Território como Política Pública – Fund. Calouste Gulbenkian, SEB, Lisboa 2011