Nuno Grande

Barcelos: onde a infraestrutura se fez cidade

 

 

Projecto Poster © Duarte D'Armas
Num texto publicado há cerca de uma década, intitulado “Minho, Urbanidade de Obra Grave”[i], descrevemos a força dos assentamentos urbanos desta região, partindo dessa bela expressão “granítica” tantas vezes usada por Fernando Távora nas suas inesquecíveis aulas de Teoria Geral da Organização do Espaço. Escrevíamos, então, que a urbanidade minhota é o resultado da estratificação de diferentes “obras graves” – edificadas com o intuito de domesticar uma difícil e exuberante paisagem – com as quais o Homem, “como bom pedreiro”, foi talhando uma série de (infra)estruturas de amarração dos povoados aos caminhos, aos rios ou ao mar. Acrescentávamos, ainda, que no povoamento disperso minhoto, muito marcado pelo regime de minifúndio, as cidades foram sempre importantes “nós” ou “cristalizações pétreas”, ligadas à protecção de rotas, ao comércio de feiras ou ao descanso de peregrinações dirigidas a Santiago de Compostela. Concluíamos, por fim, que, nessa tradição defensiva, comercial e religiosa, os principais povoados eram sobretudo interiores, uma vez que a aproximação urbana ao mar se faria tardiamente; e que, por conseguinte, a urbanidade minhota podia ser descrita, essencialmente, pelo povoamento ao longo dos seus três principais rios – o Cávado, o Lima e o Minho.

Relembramos este ensaio anterior, para olhar, desta vez, para Barcelos, cidade banhada pelo Cávado, e que constitui um exemplo eloquente do que descrevíamos então.

No manuscrito quinhentista Livro das Fortalezas, com que Duarte D’Armas ilustra as principais cidades e vilas do reino português, por incumbência do rei D. Manuel I, está registado aquele que será o desenho mais antigo de Barcelos. Nele é bem visível a presença telúrica da Muralha da Vila, enobrecida por D. Afonso I, Duque de Bragança, na primeira metade do século XV, à qual se acrescenta o seu majestoso Paço Ducal, em continuidade com a Torre e Porta da Ponte, estando esta, no detalhado desenho, espraiada sobre o rio até Barcelinhos. O registo de Duarte D’Armas evidencia o modo como, também aqui, a amarração sábia destas primeiras (infra)estruturas ao território – pondo em diálogo a muralha, as suas torres, o paço, a ponte e o rio – ditou a primeira identidade urbana de Barcelos.

Essas primeiras “obras graves” ajudaram a definir a vida quotidiana da Barcelos do final da Idade Média: a ponte enquanto acesso monumental a partir de sul; a muralha como elemento de defesa dos habitantes, almocreves e peregrinos; as suas torres e portas ligando a vida comercial intra-muros – no Largo do Apoio e na Rua Direita – ao campo ou rossio extra-muros, onde se realizava, pelo menos desde 1412, a mais importante feira da região.

Não será de espantar, portanto, que a segunda identidade urbana de Barcelos tenha surgido, precisamente, em torno do Campo da Feira (mais tarde Campo da República), sobretudo a partir de 1504, quando o denominado “Milagre das Cruzes” passou a aliar uma nova condição religiosa à já longa tradição comercial deste lugar. Ali nasceu o culto do Bom Jesus da Cruz, motivando a construção, no século XVIII, de um tempo circular, em planta de cruz grega, numa posição de verdadeira rótula arquitetónica entre a vila muralhada e o extenso vazio do rossio. Essa mesma rótula motivaria, logo depois, a construção de uma nova “obra grave” – o monumental Jardim das Barrocas com o seu Passeio dos Assentos, um parque público murado e marcado, simultaneamente, pela “ordem” infraestrutural e pela “bizarria” arquitetónica, bem ao gosto Barroco da época.

A consolidação desta segunda urbanidade de Barcelos não se fez apenas a partir da qualificação dos espaços públicos. Ela seria reforçada pela fixação, nas artérias extra-muros, de importantes solares ligados à aristocracia da região – como, entre outras, as casas dos Andrades e Almada, dos Beça Meneses ou dos Pereira da Fonseca – mas também pela construção de grandes conventos mendicantes, como os que vieram a delimitar e a monumentalizar o lado nascente e norte do Campo da Feira – respectivamente, o Convento dos Capuchos, do século XVII, cedido à Misericórdia em 1834 (por extinção das Ordens Religiosas) e hoje repartido com o Hospital de Santa Maria Maior; e o Convento das Freiras Beneditinas, que integra a Igreja de Nossa Senhora do Terço datada da primeira metade do século XVIII.

Esta segunda identidade urbana desenvolveu-se até ao definitivo derrube da muralha, no início do século XIX, cuja ausência foi sendo “cicatrizada” pela fixação de novos equipamentos na transição para os bairros extra-muros, então já consolidados. Destacamos, em particular, a Casa do Tanque, onde se instalou a Cooperativa Agrícola de Barcelos, ou a Casa dos Mendanhas Benevides Cyrne, convertida em Museu da Olaria, mais tarde enriquecido pela belíssima fachada-mural da autoria de Eduardo Nery.

Projecto Poster © João Abreu 1
No entanto, e se o derrube da muralha deixou alguns edifícios históricos sem esse suporte telúrico, tão bem captado por Duarte D’Armas – a Igreja Matriz ou o Palácio Ducal parecem hoje um pouco “desamparados” no perfil urbano – a verdade é que o seu traçado continuou bem presente na planta de Barcelos, decalcado no desenho orgânico das ruas e dos largos por ela marginados. Da muralha resta, como facto construído, uma única das suas quatro torres-porta – a Torre de Menagem (ou da Porta Nova), no acesso ao Campo da Feira, a qual funcionou como residência do Alcaide-Mor, até ao século XVII, e depois como cadeia urbana, até à década de 30 do século XX, albergando hoje o Posto de Turismo. A desaparecida (infra)estrutura urbana continuaria, assim, a “fazer cidade” bem para lá da sua função de defesa.

A progressiva fixação de indústrias na região, a partir de meados do século XIX – ligadas sobretudo à produção têxtil – em articulação com a chegada da via-férrea a Barcelos, em 1877, deu início à sua terceira identidade urbana. Esta foi caracterizada pelo crescimento da cidade – estatuto administrativo obtido em 1928 – em direcção a norte e nascente, quebrando a sua ancestral relação (infra)estrutural com as margens do Cávado. A nova Avenida da Estação – a Alcaides de Faria – tornou-se na espinha dorsal do desenvolvimento moderno de Barcelos, marcado pelos primeiros edifícios de habitação em altura, em mistura e contraste com os volumes baixos e compactos das naves fabris que se instalaram nas imediações desse mesmo eixo. Abriu-se, neste sentido, a oportunidade de urbanizar extensivamente os inúmeros terrenos agrícolas a norte da estação ferroviária – também ela remodelada na década de 40 do século XX – o que viria a ocorrer ao longo da segunda metade desse século, especialmente na freguesia de Arcozelo.

Projecto Poster © João Abreu 5
No entanto, e embora o crescimento para norte se tenha tornado irreversível, o centro de Barcelos não deixou, no mesmo período, de receber novas “obras graves”, que em muito ajudaram a reequipar a cidade. Destacamos, em particular, a criação de dois verdadeiros “centros cívicos”: a construção do Mercado de Barcelos, na transição para 1970, incluindo o arranjo da Praça de Pontevedra; e, no final dessa mesma década, a fixação de um novo conjunto de edifícios – Tribunal, Dependência Bancária e Posto dos CTT – definindo a, também nova, Praça Francisco Sá Carneiro.

Esses verdadeiros projetos urbanos – ambos coordenados pelo arquiteto José Carlos Loureiro, autor do Plano de Urbanização de Barcelos – reinterpretam, de um modo sábio, o anterior crescimento extra-muros, aliando o poder da arquitetura à modelação estratificada do espaço público, tal como ocorrera na consolidação do Campo da Feira e do Jardim das Barrocas, séculos antes. Isso é bem visível no modo como o Mercado gera uma sucessão de espaços abertos, entre pavilhões e plataformas, entre o bulício da rua e a intimidade do seu pátio interior; ou como o plateau do Tribunal nos prepara para a sucessão de socalcos que nos conduzem até ao leito do rio.

Esta atenção ao território e à paisagem, estará, de resto, bem presente no plano urbanizador coordenado por José Carlos Loureiro, documento que define uma sucessão de corredores verdes, conjugados com pequenos equipamentos – piscina, escola, esplanadas, miradouros – estabelecidos na frente urbana voltada ao Cávado. O plano procurará, simultaneamente, conter o crescimento a norte, através da criação de novas “cinturas” – desta vez viárias – também elas concretizadas ao longo das últimas décadas.

No entanto, a data da conclusão do Plano de Urbanização de Barcelos – 1986 – encerra simbolicamente essa terceira identidade urbana da cidade, uma vez que, a partir de então, uma nova condição macroterritorial emerge, à custa dos investimentos efectuados no âmbito dos fundos estruturais atribuídos à região, após a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE).

Projecto Poster © João Abreu 3
Essa nova condição dá início, pensamos, a uma quarta identidade urbana muito marcada pelo lançamento da nova rede de auto-estradas e itinerários regionais (A3 – Porto/Valença; IC1 – Porto/Caminha; A11 – Braga/Esposende) que farão “descolar” as infra-estruturas viárias do território, sobretudo no momento em que atingem as cidades. Quebrando-se essa ancestral relação entre as ações e os investimentos na infra-estruturação e no reequipamento urbano, assistimos hoje, por um lado, ao lançamento de vias que conectam lugares mas que “não fazem cidade”; e, por outro, à construção de grandes equipamentos – muitos deles também pagos com fundos comunitários – que pululam entre a rede capilar de estradas locais, mas que não conseguem gerar ou integrar uma verdadeira urbanidade. Vejam-se, na coroa de Barcelos, os casos do novo Estádio do Gil Vicente, em Arcozelo, ou do Campus do Instituto Politécnico do Cávado e Ave (IPCA), em Vila Frescaínha, ou, ainda, da Escola de Tecnologia e Gestão de Barcelos (EMEC), em Abade de Neiva, exemplos avulsos onde o esforço de qualificar os aspetos arquitetónicos não evita a condição de isolamento (infra)estrutural e urbano a que estes equipamentos estão votados. Afastam-se, por isso, da condição de “obra grave”, tal como a definia Fernando Távora.

Projecto Poster © João Abreu 4
Essa quarta identidade urbana de Barcelos está ainda ligada ao processo de desindustrialização da região minhota, o qual tem contribuído para o progressivo abandono e decadência de parte importante do tecido fabril da cidade. Esta fatalidade, poderá, no entanto, ser aproveitada para reequacionar essa relação, aparentemente perdida, entre (infra)estrutura e equipamento urbano.

Como referimos, alguns investimentos que vêm sendo realizados, nas últimas décadas, no centro de Barcelos – a construção das piscinas municipais e a qualificação das escolas secundárias, no âmbito do Programa Parque Escolar – são disso exemplo. Ainda assim, e em muitos casos, parece manter-se a lógica da intervenção avulsa, a qual deverá ser preterida em favor de uma verdadeira estratégia urbana que permita qualificar esse diálogo da cidade com as margens do Cávado e destas com as freguesias periféricas. Essa estratégia passará, necessariamente, por “malhar o território” – como nos vem ensinando o urbanista Nuno Portas – isto é, por estabelecer, de novo, conexões (infra)estruturais entres estes lugares, tirando partido estratégico da obsolescência do tecido industrial, mais próximo do centro, também ele passível de ser reconvertido, cirurgicamente, para novos usos urbanos, em acordo ou parceria com o seus proprietários.

Neste momento de reconhecível crise nacional, ao nível dos grandes investimentos públicos, Barcelos pode assim constituir-se como um verdadeiro “laboratório” de “microplaneamento” municipal. Com esta postura, será possível, julgamos, iniciar uma quinta identidade urbana da cidade, fazendo justiça a essas outras “idades” de Barcelos em que, a partir da Muralha, do Campo da Feira, do Jardim das Barrocas, do Passeio dos Assentos, da Avenida da Estação, do Mercado e da nova praça do Tribunal, foi possível acreditar que a infraestrutura “faz cidade”.

As futuras “obras graves” de Barcelos não passarão, por certo, pela grande escala arquitetónica; passarão, sobretudo, pela pequena escolha estratégica.

 

 

Notas:

[i] Grande, Nuno, “Minho, Urbanidade de Obra Grave”. Jornal Arquitectos, nº 209, Jan/Fev 2003. Lisboa: Ordem dos Arquitectos, pp.89-94